
No mês de agosto/2024 vimos o triste caso envolvendo o supermercado Hoffmann, na zona sul da capital gaúcha, em que um homem negro foi vítima de violência física por ser acusado pelos seguranças de ter furtado produtos. Mesmo em meio aos festejados dados de que estamos com maiores índices de participação de mulheres na política, a Deputada Federal gaúcha Daiana Santos em menos de dois anos de mandato já recebeu diversas ameaças em razão de ser uma mulher negra. São exemplos da naturalização da violência em nosso cotidiano que em razão da aparência do seu corpo é colocado como alguém que pode ser violentado e inferiorizado.
A justificativa histórica de nosso passado escravocrata nos remete a algumas explicações, mas não por si só. O contexto pós lei da abolição do final do século XIX e início do século XX nos mostra outros motivos, como os estudos e teorias científicas de que o negro era considerado propenso ao cometimento de atos criminosos uma vez oriundo de cultura primitiva. O Brasil era considerado subdesenvolvido em razão da miscigenação com o negro. Esse projeto de branqueamento não é exclusivo do nosso território nacional, mas uma realidade que naturalizou a inferioridade de pessoas em razão de sua aparência e, portanto, influenciadora da formação de políticas públicas e na própria educação.
Políticas de implementação de cotas em seleções e concursos públicos e as constantes reformas em nossos currículos acadêmicos para inclusão de discussões etnico-raciais, procurando modificar uma realidade social em que estamos acostumados e naturalizar que o perfil de uma pessoa bem sucedida e ocupante de poder está mais associado a imagem de um homem branco do que uma mulher ou uma pessoa negra.
Mas querer mudar este cenário é uma tarefa complexa, pois é mais de século que convivemos com essa desigualdade que promove e naturaliza a violência. E não é só uma questão entre em que o privilegiado é quem tem mais dinheiro.
Neste mesmo período vimos a manifestação do casal Giovana Ewbank e Bruno Gagliasso sobre a condenação criminal em primeira instância por injúria racial e racismo de uma pessoa que ofendeu a filha deles. Em ambos os lados do processo tínhamos pessoas com recursos financeiros e talvez por isso o caso tenha tido repercussão e chegou a uma sentença. Giovana e Bruno, inclusive, comentaram que somente quase cinco depois do fato conseguiram iniciar o processo judicial e com as provas a identificação da pessoa. Não obstante a tudo isso, poderíamos incluir neste cenário a polêmica envolvendo as boxeadoras Imane Khelif e Lin Yu-ting, boxeadoras finalistas nas Olimpíadas de Paris 2024 e que foram alvos de ódio e protesto, em razão das mesmas terem supostamente sido reprovadas em teste de gênero promovido pela Associação Internacional de Boxe. O presidente Comite Olímpico Internacional manifestou em favor de ambas e garantiu o direito (por justiça como ele mesmo comenta) de participarem das olimpíadas e criticou que testes cromossômicos não podem mais definir gênero. Penso que é uma manifestação acertada e pertinente aos dias atuais. Definir o que somos a partir exclusivamente de processos biológicos de nosso corpo sempre foi o primeiro caminho para definir o que é normal e o que é considerado fora desse espectro, fica sujeito ao processo de controle de quem tem mais ou menos direito.
Cesar Passarinho na canção “Negro de 35” comenta:
“A negritude trazia a marca da escravidão
Quem tinha a pele polianga vivia na escuridão
Desgarrado e acorrentado, sem ter direto a razão”.
Ter razão para o século XIX era praticamente exclusivo do homem branco, naturalizado superior. E ainda comenta:
“Veio a lei Afonso Arinos cultivando outras verdades
Trouxe a semente do amor para uma safra de igualdade
Porque o amor não tem cor, sem cor é a fraternidade”.
Esse trecho comenta sobre a Lei 1.390, de 3 julho de 1951, primeiro marco legal que criminalizava a prática de preconceito de cor ou raça no Brasil. Precisamos mais dessa fraternidade em que todos sem distinção possam conviver sem serem diminuídos em razão de sua aparência ou corpo. Somos todos conectados como humanidade e como já afirmava o poeta inglês Jhon Donne “a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, nunca pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”
João Beccon de Almeida Neto

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